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urante anos, a conversa sobre compensação em Portugal resumiu-se a uma pergunta: quanto é que pagas?

O salário era o argumento central na atração de talento, o critério principal de comparação entre empresas e o indicador mais usado para medir se uma proposta de trabalho era boa ou má.

Essa lógica está a mudar. Não de forma abrupta, mas os dados do estudo O Estado da Compensação em Portugal 2026, recolhidos junto de 804 trabalhadores portugueses, mostram uma transformação em curso que já não é possível ignorar.

O salário continua a pesar, mas já não decide sozinho.

Comecemos pelo ponto de partida: a pressão salarial é real. Cerca de metade dos participantes no estudo declara estar insatisfeita com o seu salário líquido. Portugal continua a apresentar níveis de remuneração abaixo da média europeia, e esse contexto é sentido no dia a dia, pois menos de metade dos trabalhadores considera que tem "dinheiro suficiente para tudo o que precisa".

Este é o ponto de pressão que muitas empresas conhecem bem: equipas que pedem aumentos, talento que sai por mais 100 ou 200 euros e orçamentos de RH que não conseguem acompanhar o ritmo das expectativas.

Mas o estudo revela algo que muda a forma de olhar para este problema: a satisfação com o trabalho está mais ligada à perceção do pacote de compensação do que ao salário isolado.

Mesmo controlando o efeito do rendimento, quem tem acesso a um pacote de benefícios mais completo reporta maior bem-estar, mais satisfação com o trabalho e menor vontade de sair.

O que os trabalhadores estão, de facto, a pedir

Quando o estudo pergunta que benefícios os trabalhadores gostariam de ter mas ainda não têm, a lista diz muito sobre o que mudou nas prioridades.

O apoio em combustível lidera (24%), seguido das despesas de saúde e bem-estar com seguro de saúde incluído (22,4%) e das soluções de poupança e reforma (21,8%). São benefícios com uma característica em comum: têm impacto direto no custo de vida e na segurança financeira.

Não são perks nem regalias de luxo, tratam-se de respostas a pressões concretas do quotidiano. O mercado de trabalho em Portugal está a dizer, com clareza, o que precisa - a questão é se as empresas estão a ouvir.

O subsídio de refeição continua a ser o benefício mais distribuído, e o mais esperado. Mas o estudo mostra que há um desalinhamento crescente entre o que existe e o que se valoriza. Acrescentar apenas o mínimo já não é diferenciador.

O seguro de saúde deixou de ser um extra

Entre os benefícios analisados, o seguro de saúde destaca-se com clareza: 73% dos participantes consideram-no um elemento importante no pacote de compensação. E entre quem já tem acesso a este benefício através da empresa, 77,4% tem-no totalmente pago pela organização.

O dado relevante não é apenas a prevalência, mas sim a expectativa. O seguro de saúde também deixou de ser um diferenciador para se tornar numa referência. Quem não o oferece começa a ficar em desvantagem competitiva, especialmente em recrutamento.

Mas o estudo acrescenta uma nuance importante: não basta oferecer um seguro. O que os trabalhadores mais valorizam é a facilidade de utilização - a qualidade da cobertura, a simplicidade dos reembolsos, a possibilidade de incluir familiares. A forma como o benefício funciona na prática é tão importante quanto o facto de existir.

O próximo passo da compensação

Há um dado no estudo que sintetiza muito bem o estado atual das coisas: apenas cerca de um terço dos trabalhadores afirma estar satisfeito com o grau de influência que tem sobre os seus próprios benefícios. Os níveis de resposta neutra são elevadíssimos, entre 37% e 43%, o que traduz uma espécie de resignação.

Esta é a fronteira onde a compensação em Portugal está agora. As empresas já perceberam que precisam de oferecer mais do que salário e muitas começaram a acrescentar benefícios. Mas o modelo dominante ainda é rígido: pacotes uniformes, definidos centralmente, iguais para toda a gente independentemente da fase de vida, das necessidades, ou das preferências.

O estudo confirma que esta lógica tem limites claros. O que gera satisfação duradoura não é o número de benefícios, mas sim a coerência e relevância do pacote para quem o recebe. Quanto mais completo e ajustado for o pacote, maior a satisfação com a compensação. E quanto maior a satisfação com a compensação, maior o engagement, maior a retenção e maior o bem-estar geral.

A flexibilidade é a direção para onde a compensação em Portugal está a caminhar, porque é o que as pessoas precisam e o que os dados mostram que funciona.

A mudança já está em curso, mas de forma desigual

O retrato que O Estado da Compensação em Portugal 2026 traça não é o de uma transformação completa, pois está a acontecer de forma desigual.

Dois terços dos trabalhadores já recebem benefícios extra-salariais, um terço ainda não recebe nenhum. Há setores e empresas que já pensam a compensação de forma integrada e estratégica, enquanto outros que ainda gerem o tema de forma reativa, respondendo a pedidos individuais em vez de construir uma política coerente.

A boa notícia é que a direção é clara. E as empresas que conseguirem fazer a transição de uma lógica centrada no salário para uma lógica de compensação total, flexível e personalizada, estarão melhor posicionadas para atrair e reter as pessoas de que precisam.

A pressão salarial não vai desaparecer. Mas a resposta a essa pressão está a deixar de ser apenas "pagar mais" para passar a ser "compensar de forma mais inteligente".

O Estado da Compensação em Portugal 2026

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