partir de junho de 2026, as empresas em Portugal passam a ser obrigadas a divulgar faixas salariais em anúncios de emprego e a reportar disparidades de género superiores a 5%. A Diretiva Europeia (UE) 2023/970 transforma a forma como organizações comunicam compensação.
Este guia explica o que a lei exige, como estruturar bandas salariais, implementar transparência passo a passo e comunicar mudanças de forma eficaz à tua equipa.
O que é transparência salarial e porque importa para as empresas em Portugal?
Transparência salarial é a prática de divulgar informação clara sobre remunerações dentro de uma organização. Inclui bandas salariais por função, critérios de compensação e diferenças entre grupos demográficos.
Mas porquê tanta atenção a este tema agora? A resposta está na mudança de expectativas: os candidatos querem saber quanto vão ganhar antes de se candidatarem, e os colaboradores querem perceber se estão a ser pagos de forma justa. A Diretiva da Transparência Salarial responde a ambas as questões.
Para empresas, as implicações são concretas:
- Conformidade legal: Evitar coimas aplicadas pela Autoridade para as Condições do Trabalho (ACT).
- Atração de talento: Anúncios com bandas salariais tendem a receber mais candidaturas qualificadas.
- Eficiência de recrutamento: Faixas salariais filtram candidatos com expectativas desalinhadas, acelerando contratações.
Obrigações legais de transparência salarial para as empresas portuguesas
A Diretiva 2023/970 estabelece três categorias principais de obrigações. A aplicação varia consoante a dimensão da organização: empresas com mais de 100 trabalhadores enfrentam requisitos de reporte mais exigentes.
Divulgação de remunerações em anúncios de emprego
Todas as empresas, independentemente da dimensão, passam a ser obrigadas a incluir informação sobre remuneração em ofertas de emprego. Esta informação pode ser uma banda salarial (exemplo: €25.000-€35.000 brutos anuais) ou um salário inicial fixo.
Por exemplo, um anúncio para "Gestor de Marketing Digital Júnior" poderá indicar: "Remuneração anual bruta: €27.000-€33.000, consoante experiência."
Direito à informação sobre níveis salariais na empresa
O artigo 7.º da diretiva dá a trabalhadores o direito de pedir informação sobre os níveis médios de remuneração na sua categoria profissional, desagregados por género. Se um colaborador perguntar quanto ganham, em média, colegas na mesma função, a empresa fica obrigada a responder.
O artigo 6.º proíbe também perguntas como "Quanto ganhavas no emprego anterior?" durante entrevistas. Esta regra visa quebrar ciclos de discriminação salarial.
Reporting de disparidades salariais de género e avaliação conjunta
Empresas com 100 ou mais trabalhadores têm de reportar anualmente dados sobre disparidades salariais entre homens e mulheres, organizados por categoria profissional.
Quando a disparidade atinge ou ultrapassa 5% numa categoria e não se justifica por critérios objetivos, a empresa fica obrigada a realizar uma avaliação conjunta com representantes dos trabalhadores. O objetivo é identificar causas e definir um plano de ação corretivo.
Direitos de trabalhadores e candidatos em matéria de transparência salarial
A diretiva coloca os trabalhadores e candidatos no centro, garantindo direitos específicos de acesso a informação e proteção contra retaliações.
Acesso a informação sobre remuneração por categoria profissional
Qualquer trabalhador pode solicitar por escrito informação sobre os níveis de remuneração praticados na sua categoria. A empresa responde de forma agregada, sem revelar salários individuais de colegas específicos.
Este pedido funciona como uma ferramenta de verificação. Se descobres que a média salarial para a tua função é significativamente superior ao que recebes, podes usar essa informação para negociar um ajuste.
Proteção contra retaliações relacionadas com pedidos de informação salarial
A lei protege trabalhadores que exercem o direito de pedir informação salarial. Empregadores não podem despedir, discriminar ou prejudicar colaboradores por fazerem perguntas legítimas sobre remuneração.
Se um gestor penaliza um colaborador na avaliação de desempenho após este questionar a sua banda salarial, a empresa pode enfrentar processos por retaliação.
Impacto da transparência salarial na igualdade salarial entre mulheres e homens
Em Portugal, o gender pay gap (GPG) situa-se em torno de 13%, segundo dados do INE. Parte deste gap resulta de fatores como diferenças de antiguidade ou setor, mas uma porção deriva de discriminação implícita e negociações opacas.
A transparência ataca o problema por três vias:
- Primeiro, expõe disparidades injustificadas: quando empresas calculam médias salariais por género, padrões de desigualdade tornam-se visíveis.
- Segundo, cria pressão para correção através do reporting obrigatório.
- Terceiro, normaliza conversas sobre remuneração.
No entanto, a transparência por si só não resolve o problema. Tem de ser acompanhada por critérios objetivos de compensação e compromisso ativo de liderança.
Passos para implementar transparência salarial na tua empresa
Implementar transparência exige mais do que publicar faixas salariais em anúncios. Requer repensar processos de compensação, recolher dados rigorosos e comunicar mudanças de forma clara.
Mapear funções e criar estrutura de carreiras
Antes de definir bandas salariais, é preciso saber quantas e quais funções existem na empresa. Muitas organizações descobrem, nesta fase, que têm títulos inconsistentes ou níveis de senioridade mal definidos.
O mapeamento começa com uma auditoria: lista todas as funções, agrupa-as por área e define critérios para distinguir níveis Júnior, Sénior e Principal. Estes critérios podem incluir autonomia, impacto e complexidade das tarefas.
Recolher e limpar dados salariais por género e função
Com a estrutura definida, o próximo passo é reunir dados de remuneração atuais para cada função e colaborador, desagregados por género. Esta recolha inclui salário base, bónus e subsídios regulares.
A qualidade dos dados é crítica. Antes de calcular médias ou gaps, valida que a informação está atualizada, completa e classificada corretamente por função.
Definir critérios objetivos de remuneração e progressão
Transparência sem critérios objetivos gera mais confusão do que clareza. Se publicas uma banda de €30.000-€45.000 mas não explicas porque alguns ganham €30.000 e outros €45.000, os colaboradores vão assumir que se trata de favoritismo.
Critérios objetivos podem incluir anos de experiência, certificações profissionais, desempenho quantificável ou responsabilidades adicionais. O importante é que sejam verificáveis e aplicados de forma consistente.
Atualizar processos de recrutamento e avaliação de desempenho
No recrutamento, passa a incluir bandas salariais em todos os anúncios e elimina perguntas sobre histórico salarial. Na avaliação de desempenho, garante que decisões de aumento se baseiam em critérios documentados.
Por exemplo, ao entrevistar um candidato para "Gestor de Produto Júnior" (banda €28.000-€36.000), o recrutador pode dizer: "Considerando os teus 2 anos de experiência, podemos oferecer €31.000, no terço inferior da banda."
Monitorizar resultados e rever a política de transparência salarial
Implementar transparência não é um projeto único. Requer monitorização contínua para garantir que gaps não reaparecem. Por isso, estabelece um ritmo de revisão anual, alinhado com ciclos de avaliação de desempenho.
A monitorização inclui recalcular médias salariais por género, auditar decisões de aumento e recolher feedback de colaboradores sobre a política.
Como estruturar bandas salariais claras e consistentes
As bandas salariais são as faixas de remuneração associadas a cada função, refletindo variações de experiência, competências e desempenho. Estruturá-las bem exige equilibrar competitividade de mercado e equidade interna.
Definição de níveis de senioridade e escalas de remuneração
Cada função pode abranger vários níveis de senioridade (Júnior, Pleno, Sénior), e cada nível tem uma banda própria. A amplitude da banda varia consoante a função: funções técnicas especializadas tendem a ter bandas mais amplas para acomodar variabilidade de competências.
Para definir escalas, começa por benchmarks de mercado: consulta estudos salariais de associações sectoriais ou plataformas como Glassdoor.
Articulação entre salário base e remuneração total
A remuneração total inclui não apenas salário base, mas também subsídios, seguros de saúde e benefícios flexíveis. Comunicar este valor ajuda colaboradores a apreciar o pacote completo.
Plataformas de benefícios flexíveis, como a Coverflex, permitem aos colaboradores escolher como alocar e gerir parte do orçamento de benefícios, seja em poupança, pagamento de creches, formação ou ginásio.
Revisão periódica das bandas salariais com base em dados de mercado
O mercado de trabalho evolui e novas competências tornam-se valiosas. No entanto, a inflação erode o poder de compra. Neste sentido, bandas salariais desatualizadas tornam-se irrelevantes e dificultam atração de talento.
A revisão anual envolve consultar novos benchmarks, analisar taxas de aceitação de ofertas e ajustar bandas para refletir a realidade atual.
Boas práticas de comunicação interna sobre transparência salarial
Implementar transparência salarial sem comunicar bem as mudanças pode gerar ansiedade e comparações tóxicas. Uma comunicação eficaz antecipa dúvidas e explica a lógica das decisões.
Planeamento de mensagens para diferentes públicos internos
Os colaboradores têm preocupações diferentes. Por exemplo, alguns colaboradores podem querer saber "Como é que isto me afeta?", enquanto os gestores podem perguntar-se "Como explico estas diferenças na minha equipa?".
Formação de líderes para conversas sobre remuneração
Os gestores são a linha da frente da transparência, pois é a eles que os outros colaboradores vão perguntar "Porque é que ganho menos que o meu colega?". Neste cenário, se os líderes não estiverem preparados, podem dar respostas inconsistentes.
A formação envolve explicar os critérios em detalhe e simular conversas difíceis através de role-playing.
Utilização de canais oficiais para explicar a política salarial
Canais como a intranet e plataformas de RH digital permitem disseminar informação de forma escalável. Publica a política de transparência, incluindo FAQs e bandas salariais por função, de forma acessível para todos.
Gestão de expectativas e perguntas difíceis dos colaboradores
A transparência salarial gera expectativas, e algumas serão frustradas. Os colaboradores que descobrirem estar no mínimo da banda podem sentir-se subvalorizados. Por isso, gerir estas emoções exige honestidade e empatia.
Envolvimento de representantes dos trabalhadores no processo
Quando o gap salarial atinge ou ultrapassa 5%, a lei exige avaliação conjunta com representantes dos trabalhadores. Envolvê-los desde o início cria transparência adicional e buy-in coletivo.
Desafios da transparência salarial e como lidar com eles
Implementar transparência salarial não é um processo isento de obstáculos. As empresas vão enfrentar resistência cultural, custos de ajuste e riscos de comparações mal interpretadas.
- Resistência de líderes: Muitos gestores habituaram-se a negociar salários de forma discricional. A transparência limita essa discrição, gerando resistência. Envolve líderes desde o início no desenho da política e forma-os para conduzir conversas sobre remuneração.
- Comparações entre colegas: Quando colaboradores descobrem que colegas ganham mais, podem sentir-se injustiçados. Comunica proactivamente os critérios que justificam diferenças salariais.
- Custos de ajustes: Corrigir disparidades custa dinheiro. Planeia ajustes de forma faseada ao longo de 12-24 meses, priorizando casos mais graves.
Como é que a transparência salarial pode reforçar a proposta de valor ao colaborador?
A transparência transforma-se numa vantagem competitiva ao reforçar a employee value proposition (EVP). As empresas que comunicam a compensação de forma clara criam culturas de confiança.
- Confiança: Colaboradores sentem que a empresa não esconde informação.
- Justiça percebida: Clareza sobre critérios reduz percepção de arbitrariedade.
- Empoderamento: Acesso a informação permite colaboradores planear carreiras ativamente.












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