á alturas em que precisas de parar de trabalhar sem cortar de vez com a empresa, seja para um projeto pessoal, cuidar de alguém, ou simplesmente descansar. A licença sem vencimento serve exatamente para isso: suspendes a atividade, ficas sem remuneração durante esse tempo, e garantes o direito a regressar quando a pausa acabar.
Neste artigo explicamos quem pode pedir licença sem vencimento, como funciona o processo passo a passo, e que impacto tem no salário, na Segurança Social, nas férias e na carreira.
O que é a licença sem vencimento e qual é o enquadramento legal?
A licença sem vencimento é uma pausa no trabalho em que deixas de receber salário, mas manténs o vínculo à empresa. O contrato fica "suspenso": não trabalhas, não recebes, mas também não és despedido. Quando a licença termina, tens direito a voltar ao mesmo posto ou a uma função equivalente.
Em Portugal, esta pausa também é conhecida como "licença sem retribuição" no setor privado ou "licença sem remuneração" na função pública. Os três termos referem-se ao mesmo conceito.
A base legal encontra-se no artigo 317.º do Código do Trabalho para o setor privado e na Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas (Lei n.º 35/2014) para a Administração Pública.
O que acontece durante a licença:
- Salário e subsídios: Deixas de receber vencimento base, subsídio de alimentação e subsídios de férias e Natal.
- Contrato de trabalho: O vínculo mantém-se ativo, apenas suspenso temporariamente.
- Proteção legal: A empresa não pode despedir-te por estares de licença.
- Benefícios: A maioria dos benefícios de empresa fica suspensa durante a licença.
Quem pode pedir licença sem vencimento e em que situações?
O direito a licença sem vencimento divide-se em dois cenários: situações em que a lei te protege e a empresa é obrigada a conceder a licença, e casos em que precisas de negociar.
Trabalhadores do setor privado em situação de formação ou estudos
Se o objetivo da licença é fazer formação profissional ou frequentar um curso académico, a empresa é obrigada por lei a concedê-la. No entanto, tens de cumprir alguns requisitos.
Precisas de ter pelo menos dois anos de antiguidade na empresa e avisar com 90 dias de antecedência. A licença tem de durar mais de 60 dias consecutivos e não podes pedir uma nova licença antes de passarem três anos desde a última. Além disso, tens de apresentar comprovativo de matrícula ou inscrição no curso.
A empresa só pode recusar se for uma micro ou pequena empresa onde seja impossível substituir-te, ou se ocupares um cargo de direção crítico. Fora dessas exceções, a lei protege-te.
Trabalhadores do setor privado com motivos pessoais ou familiares
Fora do contexto de formação ou estudos, a lei não obriga a empresa a conceder licença sem vencimento. Aqui, é uma questão de negociação.
Os motivos pessoais mais comuns incluem acompanhar cônjuge transferido para outra cidade, cuidar de familiar com doença grave, ou fazer um projeto pessoal, como viajar ou escrever.
Nestas situações, a empresa avalia o pedido caso a caso. Podes aumentar as tuas hipóteses se mostrares que tens intenção de regressar e que estás disposto a ajudar na transição, por exemplo, treinando um substituto.
Trabalhadores em funções públicas com motivos pessoais ou de interesse público
Na Administração Pública, o regime é diferente e está regulado pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas. A função pública distingue entre licenças de curta duração (até 90 dias por ano) e licenças de longa duração (até 10 anos).
Os motivos típicos incluem acompanhar cônjuge destacado, exercer funções em organismos internacionais, ou cuidar de dependentes. O pedido é formal, por escrito, e exige fundamentação clara.
Diferenças entre licença sem vencimento no setor privado e na função pública
Embora o conceito seja o mesmo, as regras práticas diferem consoante trabalhas no setor privado ou na Administração Pública.
Licença sem retribuição regulada pelo Código do Trabalho
No setor privado, o regime é regulado pelo artigo 317.º do Código do Trabalho. O direito automático existe apenas para formação ou estudos, com os requisitos de antiguidade e pré-aviso já mencionados.
A duração mínima é de 60 dias, sem máximo legal explícito, depende do acordo ou da duração do curso. O tempo de licença conta, em princípio, para antiguidade na empresa, mas pode não contar para progressões salariais automáticas.
Licença sem remuneração regulada pela Lei Geral do Trabalho em Funções Públicas
Na Administração Pública, o regime é mais estruturado. A duração pode ir até 90 dias por ano na modalidade curta ou até 10 anos consecutivos na longa.
O tempo de licença não conta, regra geral, para antiguidade, progressão na carreira ou cálculo da aposentação. Isto acontece a menos que mantenhas contribuições voluntárias para a Caixa Geral de Aposentações (CGA). O impacto na carreira pode ser significativo, especialmente para licenças longas.
Quanto tempo pode durar a licença sem vencimento?
A duração depende se trabalhas no setor privado ou na função pública, e também do motivo da licença.
Duração da licença sem vencimento no setor privado
No Código do Trabalho, o mínimo legal é mais de 60 dias consecutivos. Não há máximo explícito na lei.
Se o motivo for formação, a duração corresponde à do curso. Se for motivo pessoal, a duração é negociável com a empresa. Por exemplo, para um mestrado de dois anos, a licença pode durar esses dois anos. Para seis meses sabáticos, tens de chegar a acordo.
Duração da licença de curta duração na função pública
Na função pública, a licença de curta duração pode ir até 90 dias por ano civil, seguidos ou interpolados. Esta modalidade é pensada para necessidades temporárias, como cuidar de um familiar doente durante dois meses.
Se precisas de um período mais longo, tens de pedir licença de longa duração.
Duração da licença de longa duração na função pública
A licença de longa duração pode ir até 10 anos consecutivos, dependendo do motivo e do tipo de vínculo. Esta modalidade é adequada para situações prolongadas, como acompanhar cônjuge em missão no estrangeiro ou realizar um doutoramento.
Para licenças tão longas, o impacto na carreira e aposentação é significativo. Se não mantiveres contribuições voluntárias para a CGA, esses anos não contarão para a reforma.
Como pedir licença sem vencimento passo a passo
O processo é relativamente simples, mas exige planeamento e formalização por escrito.
Confirmar o regime legal e as regras internas da empresa
Antes de tudo, confirma se tens direito legal à licença ou se vais ter de negociar. Consulta o teu contrato de trabalho, acordo coletivo ou regulamento interno.
Falar informalmente com o departamento de recursos humanos pode dar-te uma ideia da abertura da empresa a este tipo de pedidos. Pergunta se a empresa já concedeu licenças antes e quais são os prazos esperados.
Definir motivo, datas e duração da licença
Tens de ter clareza sobre o motivo da licença, as datas de início e fim, e a duração total. Se o motivo for formação, a duração corresponde à do curso.
Se for motivo pessoal, propõe datas concretas. Se possível, alinha as datas com períodos de menor impacto na empresa, como fora de época alta ou após conclusão de projetos importantes.
Preparar o pedido escrito e a documentação de suporte
O pedido tem de ser formal e por escrito, dirigido ao departamento de recursos humanos ou ao teu superior hierárquico.
O que incluir no pedido:
- Identificação: Nome, número de colaborador, cargo, departamento.
- Motivo: Explicação breve e clara.
- Datas: Período completo e duração total em meses.
- Documentação: Comprovativo de matrícula se for formação.
- Compromisso: Declaração de intenção de regressar.
No caso de formação ou estudos, respeita os 90 dias de antecedência exigidos por lei.
Negociar condições e registar o acordo por escrito
Após apresentares o pedido, a empresa pode aceitar, pedir esclarecimentos, propor ajustes nas datas, ou recusar. Nesta fase, podes negociar condições práticas como a duração exata, a transição, e a manutenção de alguns benefícios.
Formaliza o acordo por escrito, com assinatura de ambas as partes. Pede ao departamento de recursos humanos uma carta a confirmar a concessão da licença, com datas e condições.
Impactos da licença sem vencimento no salário e na Segurança Social
A licença tem impactos diretos no salário mensal e indiretos na Segurança Social e reforma.
Perda de salário e de subsídios durante a licença sem vencimento
Durante a licença, deixas de receber qualquer remuneração: salário base, subsídio de alimentação, subsídios de férias e de Natal, prémios e comissões. Esta perda é total e imediata.
Se vais tirar seis meses de licença, calcula as tuas despesas fixas e certifica-te de que tens poupanças suficientes.
Efeitos nas contribuições para a Segurança Social ou CGA
Como não há salário, não há contribuições normais para a Segurança Social ou CGA. No setor privado, o período de licença não conta automaticamente para o cálculo da reforma, a menos que faças contribuições voluntárias.
Na função pública, o tempo de licença não conta para a carreira nem para a aposentação, salvo se mantiveres contribuições voluntárias à CGA. Isto pode ser dispendioso porque terás de pagar a tua contribuição e a contribuição da entidade empregadora.
Se a licença for curta, de três a seis meses, o impacto na pensão é pequeno. Se for longa, vale a pena simular o impacto junto da Segurança Social ou CGA antes de decidir.
Impacto na reforma ou aposentação a longo prazo
O principal risco a longo prazo é a redução do valor da pensão de reforma. No setor privado, se não contribuíres durante a licença, esses meses ou anos não contam para o cálculo da pensão.
Efeitos da licença sem vencimento nas férias e outros benefícios
Para além do salário, a licença afeta também férias e benefícios não salariais.
Direitos a férias e subsídio de férias relacionados com a licença
Durante a licença, não acumulas dias de férias porque não estás a trabalhar. Se trabalhares parte do ano e tirares licença noutra parte, acumulas férias e subsídio apenas proporcionais aos meses trabalhados.
Antes de iniciar a licença, combina com o departamento de recursos humanos se preferes gozar as férias acumuladas antes de sair ou guardá-las para quando voltares.
Tratamento de benefícios flexíveis e cartões de refeição
Benefícios, como cartão de refeição e benefícios flexíveis, ficam suspensos durante a licença porque estão legalmente ligados à prestação de trabalho. Deixas de receber subsídio de alimentação e acesso ao cartão de refeição.
Algumas empresas optam por manter acesso a certos benefícios através de plataformas flexíveis, mesmo durante pausas. Isto é voluntário e depende da política da empresa, mas plataformas como a Coverflex facilitam este tipo de ajuste.
Tomar uma decisão informada sobre a licença sem vencimento
Decidir pedir licença sem vencimento é pessoal e depende de vários fatores.
Avaliar motivações pessoais e profissionais para a pausa
O primeiro passo é perceber por que razão queres a licença. Pergunta-te se o motivo é urgente, se a licença vai contribuir para o teu crescimento, e se conseguirias alcançar o mesmo objetivo de outra forma.
Se a motivação for forte e o objetivo claro, a licença pode ser transformadora. Mas, se for vaga, talvez seja melhor tentar negociar alternativas, como uma redução de horário ou regime de teletrabalho.
Ponderar o momento certo na carreira e na vida financeira
O timing é fundamental. Considera se tens poupanças suficientes, em que fase da carreira estás, e se tens compromissos financeiros que dependem do teu salário.
Não há momento perfeito, mas há momentos mais favoráveis: quando tens almofada financeira e quando a empresa está numa fase estável e recetiva.











