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uase dois anos e meio depois de a pandemia ter mudado para sempre a forma como trabalhamos e nos relacionamos em contexto laboral, no regresso ao escritório, os modelos flexíveis – que permitem o trabalho remoto – têm sido, regra geral, os regimes que as empresas têm escolhido implementar. A produtividade sobreviveu à mudança dos modelos laborais e, dizem os estudos, em certos casos, até aumentou. E o bem-estar das pessoas também saiu beneficiado.

Graças a esses resultados, gigantes dos mais variados setores, desde a EDP à KPMG, passando ainda pela Farfetch, decidiram adotar modelos de trabalho híbrido, e outras, como é o caso da Liberty Seguros, do Airbnb ou da Revolut, deram um passo ainda maior, em direção a regimes mais flexíveis, permitindo o trabalho remoto de forma permanente, dando aos colaboradores a possibilidade de escolherem a partir de onde querem trabalhar. 

Os estudos indicam que a produtividade não fica comprometida, antes pelo contrário, e que o bem-estar e a motivação são potenciados. Num inquérito realizado pela Capgemini, 63% das empresas inquiridas relatam um aumento na produtividade devido ao trabalho remoto, e ainda 88% das organizações afirmam que conseguiram poupar nas despesas com o imobiliário, em 2020. 

Os estudos indicam que a produtividade não fica comprometida, antes pelo contrário, e que o bem-estar e a motivação são potenciados. Num inquérito realizado pela Capgemini, 63% das empresas inquiridas relatam um aumento na produtividade devido ao trabalho remoto, e ainda 88% das organizações afirmam que conseguiram poupar nas despesas com o imobiliário, em 2020. 

Também o Grupo Adecco, no estudo “Resetting Normal: Defining the New Era of Work/2021”, mostra que, se os receios de quebras de produtividade eram um obstáculo para os empregadores avançarem para modelos mais flexíveis, não há motivos para recear. Mais de 80% dos profissionais inquiridos dizem sentir-se tão ou mais produtivos do que antes da pandemia, e querem manter o modelo em que sentem ser mais eficazes: 53% quer um regime híbrido, em que mais de metade do seu tempo de trabalho é realizado de forma remota. Um desejo que é mais expressivo nas gerações mais jovens e nos profissionais que são pais, revelam os dados do estudo. 

“A maioria dos profissionais quer um modelo de trabalho híbrido, com flexibilidade de horários. Após um período de mais de um ano e meio marcado por sucessivos confinamentos que afetaram os trabalhos de ‘secretária’, as pessoas tiveram de criar necessariamente as condições para o fazerem de forma eficaz e perceberam as vantagens em conciliar o trabalho com a vida pessoal, gerindo os seus próprios horários”, diz Carla Rebelo, CEO da Adecco Portugal. 

E perceberam que funciona. “É também um sinal de que muitas pessoas, mas também as empresas, tiveram capacidade de continuar a sua atividade sem interrupção e adaptar-se a este novo paradigma de trabalho”, acrescenta, com base na investigação do grupo, que envolveu 15 mil profissionais inquiridos de 25 países. 

Saúde mental. Benefícios e alertas 

O foco das empresas deveria estar em “desbloquear o potencial de cada um, independentemente do local onde estão a trabalhar”, defende Pedro Galhardas, managing director, responsável pela área de strategy & consulting da Accenture Portugal. As pessoas com a opção de trabalhar num modelo híbrido “são capazes de gerir com maior facilidade os desafios de saúde mental, apresentam relações de trabalho mais fortes e planeiam ficar nas empresas onde trabalham durante muito tempo”, defende o responsável. 

O foco das empresas deveria estar em “desbloquear o potencial de cada um, independentemente do local onde estão a trabalhar”, defende Pedro Galhardas, managing director, responsável pela área de strategy & consulting da Accenture Portugal. As pessoas com a opção de trabalhar num modelo híbrido “são capazes de gerir com maior facilidade os desafios de saúde mental, apresentam relações de trabalho mais fortes e planeiam ficar nas empresas onde trabalham durante muito tempo”, defende o responsável. 

O estudo “The Future Of Work: Productive Anywhere”, da consultora, que abrangeu um total de 9.326 profissionais, revela que 83% das pessoas consideram o modelo de trabalho híbrido o ideal, com a possibilidade de trabalhar remotamente a partir de qualquer lugar entre 25% e 75% do tempo. Dentro do grupo de pessoas que desejam manter um modelo de trabalho misto, 40% sentem que podem ser produtivas e manter o bem-estar em qualquer lugar. Apenas 8% admitem sentirem-se desconectadas e frustradas neste tipo de modelo. 

A flexibilidade acaba, regra geral, por influenciar positivamente o bem-estar das pessoas, que passaram a integrar, de uma forma mais harmoniosa, a vida profissional e a vida pessoal. Para Miguel Garcia, general manager da New Work Portugal, para quem o trabalho remoto não era totalmente desconhecido, mesmo antes da pandemia, dar esta flexibilidade e liberdade “ajuda no equilíbrio da vida pessoal e profissional e, no limite, beneficia largamente ambas”, refere, acrescentando que é importante que as pessoas encontrem o seu “sweet spot“, um local onde se mantêm calmas, seguras, focadas e produtivas. 

Mas atenção. “Nem todos os profissionais têm o perfil adequado para gerir o seu trabalho e equipas neste modelo”, alerta Carla Rebelo. Com o trabalho remoto, também a pressão sobre as lideranças na gestão de equipas à distância aumentou. E é importante estar também atento a quem olha, tradicionalmente, pelas suas pessoas. 

A pesquisa por doenças relacionadas com a saúde mental aumentou no período de pandemia, concluiu um levantamento feito pela plataforma de marketing online Semrush. Palavras como “ansiedade”, “depressão” e “stress” apareceram no topo das pesquisas; porém, o termo “burnout” teve o maior aumento, com 122%. 

Para a Adecco Portugal, a saúde mental num ambiente de trabalho à distância é precisamente um dos maiores desafios que as organizações têm pela frente. O relatório revela que as organizações estão em risco de perderem uma nova geração de líderes, com mais de metade dos jovens líderes (54%) a relatar sofrer de burnout e três em cada dez inquiridos a afirmarem, de um modo mais geral, que a sua saúde mental e física diminui nos últimos 12 meses. Para isso contribuiu o aumento, na ordem dos 14%, das horas adicionais trabalhadas. 

Para a Adecco Portugal, a saúde mental num ambiente de trabalho à distância é precisamente um dos maiores desafios que as organizações têm pela frente. O relatório revela que as organizações estão em risco de perderem uma nova geração de líderes, com mais de metade dos jovens líderes (54%) a relatar sofrer de burnout e três em cada dez inquiridos a afirmarem, de um modo mais geral, que a sua saúde mental e física diminui nos últimos 12 meses. Para isso contribuiu o aumento, na ordem dos 14%, das horas adicionais trabalhadas. 

Adaptação é a palavra-chave na determinação do sucesso destes novos modelos. “Há um dado que a Adecco tem vindo a confirmar, que era tendência pré-pandemia, mas que obviamente foi acentuado e acelerado por via do novo paradigma de trabalho imposto por este evento: a confirmação de que as soft skills são fator de sucesso inerente à adaptação a novas formas de trabalhar”, diz a líder da Adecco Portugal, recordando que 67% dos não gestores afirma que os líderes não satisfazem as suas expectativas de verificar o seu bem-estar mental. 

Um trunfo para a atração de talento 

Apesar dos desafios, mais do que um nice to have, o trabalho remoto parece ser já um must have, sobretudo entre as gerações mais jovens. Estudos realizados nos Estados Unidos da América revelam que há já uma tendência dos trabalhadores de deixarem os seus empregos para não terem de deixar de trabalhar remotamente. 

Segundo os dados da americana Morning Consult para a Bloomberg, 39% dos trabalhadores admitem despedir-se se os empregadores não forem flexíveis e permitirem o trabalho remoto. E o número aumenta na geração Y (Millenials, após o início dos anos 1980) e Z (após 1996), com 49% a admitir sair da empresa. 

“Os modelos de trabalho a adotar são, cada vez mais, uma preocupação das organizações e do mercado de trabalho, numa decisão que claramente é condicionada pelo setor em que a organização se insere ou pelo tipo de funções a exercer, mas que tem um impacto crescente na sua capacidade de atração de talento”, comenta Rui Teixeira, chief operations officer do ManpowerGroup Portugal. 

“Os modelos de teletrabalho, em formato remoto ou híbrido, estão cada vez mais presentes, sendo bem valorizados pelos trabalhadores, que não querem perder a flexibilidade adquirida durante a pandemia. As organizações devem ir ao encontro destas suas preferências, e apostar em modelos que promovam a flexibilidade de horários e de locais de trabalho, mas também outros incentivos que incentivem a autonomia e a conciliação entre trabalho e vida pessoal”, acrescenta. 

“Os modelos de teletrabalho, em formato remoto ou híbrido, estão cada vez mais presentes, sendo bem valorizados pelos trabalhadores, que não querem perder a flexibilidade adquirida durante a pandemia. As organizações devem ir ao encontro destas suas preferências, e apostar em modelos que promovam a flexibilidade de horários e de locais de trabalho, mas também outros incentivos que incentivem a autonomia e a conciliação entre trabalho e vida pessoal”, acrescenta. 

Apenas desta forma poderão desenvolver uma “proposta de valor única” que as torne mais competitivas no atual contexto de escassez de talento. E essa deve ser também uma preocupação de base, já que, para agravar, estamos perante uma situação de falta de profissionais que possuem as competências que o mercado procura.

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